Fazendeiro
ele se levanta antes de seus vizinhos
muito antes que o sol
acorde as cigarras
e comece a devolver algum calor
às campinas
em cujo orvalho esbranquiçado
uma fêmea de cachorro-do-mato e seu filhote
acabam de deixar o rastro escuro
e silencioso
de sua vigília pelos homens
(as mandíbulas daquele filhote desajeitado e frágil
são logo cedo uma síntese delicada do mundo)
o fazendeiro calça suas botas de borracha
se agasalha para enfrentar
o frio que entra pelas frestas madrugadas
de abril
e com o arado firme
e inoxidável
da própria solidão
espera que o dia o sol o caminho para a terra
a própria terra
encantada pelos desvios que encontra
do que a mão do homem quer dela
o elevem ao chão de sua fazenda de sonho
e nesse solo
tão vasto quanto particular
ele possa então consagrar sua colheita
(não de alimento que lhe atravesse o corpo
mas um outro
suspeito de igual importância
seiva da satisfação
de sua alma)
.
(Para o meu amigo, vizinho e fazendeiro Leonardo de Barros)
de Edu Campos, amigo.